Licença-paternidade: como é ficar mais do que 5 dias com o filho?  


Isabel Malzoni
por: Isabel Malzoni

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Os pais já abriram espaço para cuidar dos filhos, acredita psicóloga (Foto: CrayonStock)

Foi sancionada em 8 de março deste ano a ampliação da licença-paternidade de 5 para 20 dias corridos nas empresas que participam do Empresa Cidadã. A decisão foi amplamente comemorada, mas, na prática, a adoção aconteceu em escala bem menor. Aproximadamente 90% das empresas brasileiras não fazem parte desse programa – o que exige a declaração dos impostos sobre o Lucro Real, entre outros requisitos – e continuam oferecendo apenas os tais 5 dias corridos. Portanto, mais do que comemorar o fato, torcemos para que seja apenas o primeiro passo em direção a uma mudança abrangente, que inclua os pais nos cuidados com os filhos. Porque eles podem, devem e querem participar.

“Os pais já abriram espaço para esse cuidado com os filhos na vida deles. É uma grande mudança de paradigma da contemporaneidade. A lei começa a refletir isso”, acredita a psicóloga Maria Carolina Signorelli, colunista do It Mãe. Para ela, a família só tem a ganhar. “Do ponto de vista da mãe, o pai da criança é o melhor respaldo emocional que ela pode ter. Já do ponto de vista do pai… Bem, um filho é, num cenário ideal, um projeto de vida em comum. Nada mais justo que ele possa estar inserido na vida da criança desde o início”, diz. Quanto ao bebê, embora seja comum associar os primeiros cuidados apenas à mãe, ele pode e deve ser atendido por outras pessoas que tenham afeto por ele, claro. Para demonstrar essa importância, na prática, convidamos homens que deram um jeito de ficar mais tempo em casa quando os filhos nasceram para compartilhar aqui suas experiências. O impacto que esse período teve nas vidas deles e de seus bebês falam por si.

“Foi essencial para entender a minha mulher”

Foram as circunstâncias que permitiram que eu ficasse mais em casa nos primeiros três meses de vida da minha filha. Eu sou freelancer, portanto tenho algum controle sobre meus horários. Então, no último mês da gravidez, minha mulher e eu conversamos e decidimos que seria legal se eu pudesse pegar o mínimo possível de trabalho nessa fase. Estruturamos a casa e separamos uma grana para isso.

Ainda bem que tomamos essa decisão. Hoje não entendo como poderia ter sido diferente. Não consigo imaginar como as mulheres fazem isso sozinhas, ficar em casa e cuidar do bebê sem ter ninguém pra dividir. Duas pessoas ainda é pouco para cuidar de uma criança. São tantas demandas, práticas e emocionais. Ainda hoje, que ela já tem 7 meses, não acho tão tranquilo viajar a trabalho e deixá-las sozinhas.

Acredito que, com a minha presença nesses primeiros meses, consegui dar apoio para minha mulher, e também entender tudo que ela passou. É um processo muito forte para as mulheres, de dentro para fora. Para os pais é diferente, de fora para dentro.  Portanto, se você não está presente, fica difícil compreender essa dedicação total da mulher, que precisa estar disponível o tempo todo. Por esse aspecto, foi muito bom para o meu casamento eu estar ali, ser parceiro dela. Mas não apenas. Foi importante para o tipo de vínculo que eu quero ter com a minha filha. Digo isso porque acredito que ele exista de qualquer maneira, entre pais e filhos, mas com diversas qualidades. E acho que deixar que o filho modifique tanto a sua vida é estar aberto para uma relação com mais presença, com mais intimidade.”

Diego Garcia, 31, pai de Teresa, 7 meses, e videomaker. Autor do projeto Quando Nasce um Pai

“Os homens dessa geração querem participar”

Tive uma licença-paternidade de 14 dias corridos, oferecida pelo banco em que trabalho. Foi um privilégio ter podido ficar mais tempo em casa, nesse momento tão intenso. Claro, se fosse falar do ideal, acho que precisaria de um mês, porque foi o tempo que meu filho começou a criar alguma rotina para dormir. Antes disso, ele acordava tanto no meio da noite que ficamos exaustos. Se tivesse ficado apenas cinco dias em casa, então, imagino que teria sido difícil voltar a trabalhar após ficar tantas horas em claro. Mas a gente vai se acostumando aos poucos. E enquanto isso, pude ajudar a minha mulher e aprender junto com ela como cuidar do bebê, já que somos marinheiros de primeira viagem.

Participar desde o começo, na minha opinião, é importante porque você aprende e se torna útil. Eu, por exemplo, sou o trocador de fraldas oficial e boto para arrotar de madrugada. Meus amigos também são assim, os homens não são mais como antigamente, que acham que só têm que prover. Acredito que se a gente consegue dormir pouco para trabalhar, também podemos dormir menos para cuidar do filho.

Jeferson Val, 32, bancário e pai de Samuel, 4 meses

“Ganhei segurança para cuidar dele”

 Fiquei em casa praticamente um mês depois que meu filho nasceu. Pude escolher o tempo que fiquei em casa porque tenho minha própria empresa. Havia me preparado para ficar ao menos duas semanas, mas demos sorte de ele nascer no fim do ano e poder emendar Natal e Ano Novo. Quis muito ficar com meu filho e ajudar minha mulher porque, para mim, era fundamental que fosse tranquilo para todo mundo.

Olha, não tenho como falar por ele, mas para mim foi como uma imersão, que me deu segurança e liberdade para cuidar dele. Eu nunca tinha trocado uma fralda, nunca tinha feito um bebê dormir. Mas fiz tudo logo de cara: peguei no colo, dei banho, limpei umbigo, botei para arrotar, coloquei para dormir.  Se fosse diferente, talvez hoje não fosse tão fácil para mim assumir alguns cuidados. Mas eu sei cuidar dele. Ele se sente seguro comigo. E é engraçado que alguns homens mais velhos me olham carregando meu filho dessa forma e se espantam um pouco. Acho que para eles talvez tenha sido diferente.

Rodrigo Silveira, 33, pai de Diego, 1 ano, e designer de móveis

  • Isabel Malzoni

    É jornalista e sócia da Editora Caixote, que publica livros infantis interativos, como Pequenos Grandes Contos de Verdade, finalista do Prêmio Jabuti. Mãe de Diego, divide-se entre os cuidados com o bebê, descobertas culinárias e muitos, muitos textos Isabel Malzoni é

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