Como (e por que) criar meninos e meninas com igualdade


Malu Echeverria
por: Malu Echeverria

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Evite incentivar as brincadeiras por gênero: meninos e meninas podem e devem brincar do que quiser (Foto: 123RF)

Os últimos meses foram marcados por discussões acaloradas nas redes sociais em torno de temas polêmicos, como cultura do estupro e igualdade de gênero. Ainda que pareçam assunto apenas de adultos, é importante abordá-los desde cedo, na sua casa e na escola. Pois só assim, de acordo com o educador Marcelo Cunha Bueno, fundador da Escola Estilo de Aprender (SP) e apresentador de Vigiando a Vovó (do canal GNT), haverá mudanças. A seguir, ele explica, entre outras coisas, porque o machismo é ruim tanto para as meninas quanto para os meninos.

It Mãe: Por que educamos meninos e meninas de maneira diferentes?

Marcelo Cunha Bueno: Também me faço essa pergunta. Embora existam novas construções familiares, o conceito de família não mudou para muita gente. E a escola continua sendo a mesma de sempre também, ou seja, com atividades, práticas, uniformes e exigências de conduta para um e para outro, partindo da ideia de que os meninos são fortes e corajosos e as meninas, frágeis e sensíveis. A sociedade vai reforçando essas dinâmicas e elas se perpetuam. Precisamos mudar, então, os conceitos de escola, família, cidade, cultura… se quisermos ter uma visão mais ampla da construção de gênero.

It Mãe: Mas eles se comportam de maneira diferente, de fato?

M.C.B.:Para mim, a maioria das diferenças (de comportamento) está relacionada a um condicionamento da sociedade. Hoje, há mais homens engenheiros e pilotos porque eles foram educados para isso. Com as profissões “femininas” acontece o mesmo.

It Mãe: Por que é importante falar de gênero com as crianças?

M.C.B.: Para início de conversa, é preciso entender o conceito de gênero. Pois há muita confusão nesse sentido. Não tem a ver com educação sexual, como muitos pensam. Estamos falando de uma quebra de paradigma de que existem coisas de menino e coisas de menina, segundo as quais se condiciona um comportamento. A multiplicidade de gênero apenas inverte essa lógica. Ou seja, desfaz os discursos que aprisionam (por exemplo, menino não chora e menina tem de ser delicada) para tornar a vida e as escolhas — não as sexuais, e sim as sociais e culturais — mais amplas e múltiplas. Não é preciso falar exatamente de gênero com os pequenos, pois isso exige um nível de aprofundamento que eles terão mais pra frente, talvez na adolescência. Na primeira infância, o mais importante é viver a construção de gênero, o que se faz rompendo estereótipos.

It Mãe: Assim como as meninas, os meninos também são prejudicados pelo machismo da sociedade? De que forma?

M.C.B.: Super prejudicados. O machismo está em todo o lugar, na TV, nos brinquedos, na escola. Em relação à moda, por exemplo, não vestimos as crianças com roupas, mas com estereótipos. E no caso deles existe uma cobrança da família para que gostem de futebol, sejam corajosos e jamais chorem. É muita pressão para uma criança. Até porque o menino, assim como a menina, também se espelha na mãe. Como fazer com que ele negue essa natureza feminina com a qual se identifica, que é a própria mãe?

It Mãe: Na prática, o que os pais têm de fazer para interromper esse ciclo?

M.C.B.: É importante que não se separe as brincadeiras por gênero, ou seja, separando as “de menino” das “de menina”. Em resumo, valorizar o brincar sem gênero. Além disso, proteger as crianças de referências, da mídia em geral, que sexualizam a infância (moda, música, publicidade, televisão, etc.). Não estimular os estereótipos que falamos, segundo os quais as meninas são mais fracas e submissas e os meninos, o contrário. E, por último, ensinar o respeito ao corpo e à integridade física e moral das outras crianças, seja na hora da briga ou do afeto. Pois nem todas as crianças gostam de receber beijos e abraços apertados, por exemplo.

It Mãe: E a cultura do estupro, você acha que é só mesmo uma questão de educação?

M.C.B.: Não tem a ver só com a educação, mas certamente a maneira como o indivíduo foi educado influencia. Não estou falando de classe social. Pois ainda que falte educação de qualidade para a criança pobre, a de classe média também sofre com a falta de outro tipo de apoio, o da família, que a terceirizou para outras instâncias. Acredito que para acabarmos com essa cultura do estupro, precisamos ser amorosos e presentes na vida das crianças, em primeiro lugar. Dessa forma, nós as ensinamos a estabelecer conexões com o mundo com harmonia. Além disso, temos de ensiná-las a se colocar no lugar do outro. E acima de tudo, sermos coerentes. Não adianta xingar alguém no trânsito ou dar de dedo na cara do professor e esperar que nosso filhos sejam tolerantes. Pois a essência da violência está na falta de percepção de que a pessoa ao seu lado merece respeito como um todo, isto é, de seu corpo, de seu modo de pensar, de seus ideais, mesmo que sejam diferentes dos seus. O estupro acontece, em parte, porque o cara foi criado em uma esfera onde há falta de consideração ao corpo da mulher, assim como ao próximo em geral.

  • Malu Echeverria

    Jornalista, mãe do Gael e redatora-chefe do It Mãe. Para ela, é essencial colocar a máscara de oxigênio primeiro na gente, depois na criança

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