Icterícia: o bebê pode tomar o banho de luz no colo da mãe?


Isabel Malzoni
por: Isabel Malzoni

Imagem Baby dormindo

Apenas 8% dos bebês com icterícia necessitam fazer a fototerapia (Foto: Freeimages)

De uns dias para cá, rodou em grupos de mães no Facebook a foto de uma mãe segurando um recém-nascido no colo, enquanto o mesmo recebia o banho de luz (também chamado de fototerapia) na maternidade. Muitas mulheres aplaudiram o surgimento de uma nova possibilidade para o tratamento da icterícia, já que a maneira convencional pode ser angustiante, tanto para a mãe quanto para o bebê – ele fica só de fralda e vendas nos olhos em um bercinho vazio, sob uma luz azul. O sucesso da imagem, compartilhada milhares de vezes, chamou a atenção para o custo emocional que esse tratamento corriqueiro tem para as mães. E levantou um questionamento: é possível tornar esse procedimento mais humanizado?

Infelizmente, ainda não. Nas principais maternidades da capital paulista, segundo o It Mãe apurou, o banho de luz é feito da maneira tradicional e não há a possibilidade de recebê-lo no colo. Por quê? “A fototerapia é um tratamento que precisa ser feito com controle da radiância da lâmpada e que tem uma duração certa, definida caso a caso. Não dá para substituir por banho de sol ou variar o tempo de exposição”, explica Alice Deutsch, pediatra neonatologista do Hospital Israelita Albert Einstein (HIAE), em São Paulo. Ela defende a importância de fazer o tratamento da maneira convencional em prol desse controle.

Mas a pediatra Marcia Zani, que atende a criança da foto em questão, discorda. Ela conta que a bebê tinha baixo peso e chorava muito. Então a mãe, angustiada por ter de deixá-la no bercinho aos prantos, pegou-a no colo e direcionou a lâmpada de modo que a luz continuasse a atingindo. A bebê parou de chorar e ainda pode mamar em livre demanda durante a sessão. Em seguida, a mãe enviou a foto para a média para pedir a autorização. “Na hora, pensei: por quê não? Apenas a orientei a cobrir os olhos para evitar danos à retina e a fazer uma proteção com travesseiros para evitar que o bebê caísse, caso ela adormecesse”, conta. De acordo com Márcia, antigamente os aparelhos não permitiam o direcionamento da luz, como acontece com os modelos mais modernos. “Entretanto, após essa mudança, acho que ninguém se perguntou por que o tratamento continuou sendo feito da mesma forma”, diz. Para ela, talvez seja mais um procedimento – dentre outros – feito em hospitais que precisa ser revisto. “Nós, da área da saúde, às vezes nos acomodamos e paramos de questionar os procedimentos”, reflete a especialista.

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Essa imagem viralizou na web e levantou questionamentos sobre a humanização do tratamento contra icterícia (Foto: Reprodução Facebook Pequenos Tesouros by Marcia Zani)

A assessoria de imprensa do Hospital São Luiz (Rede D’Or), em São Paulo, onde a foto foi tirada, informou que o caso foi uma exceção. Mas vem sendo questionada pelas mães desde então e analisa a viabilidade de uma possível mudança, ressaltando que é preciso estudar a eficácia do tratamento feito dessa maneira antes.

O que está por trás do problema

A icterícia é uma síndrome comum: acomete até 80% dos recém-nascidos. Trata-se do excesso de bilirrubina presente no sangue da criança, resultado da destruição das hemoglobinas (células do sangue) do feto. Esse índice é mais alto nos bebês porque eles possuem hemoglobinas em maior número no corpo e o fígado não consegue metabolizar essa bilirrubina extra, quando já não precisa mais delas (depois do nascimento, surgirão outras hemoglobinas). Essa substância deixa a pele amarelada, mas na maioria dos casos configura o que os médicos chamam de “icterícia fisiológica” e não tem consequências para a saúde. A bilirrubina só se torna prejudicial em níveis altos, quando passa a ser tóxica e pode até mesmo causar danos para as células nervosas. É para evitar que chegue a esse ponto que, a partir de determinado nível, prescreve-se o banho de luz – somente entre 6 e 8% das crianças precisam ser submetidas à fototerapia. Os fatores que aumentam a incidência e gravidade da icterícia são: prematuridade, baixo peso do bebê ou incompatibilidade sanguínea com a mãe. Embora o problema seja corriqueiro, raramente torna-se grave, desde que tratado. E por que não fazê-lo de modo mais confortável para todos, certo? Vale a reflexão!

  • Isabel Malzoni

    É jornalista e sócia da Editora Caixote, que publica livros infantis interativos, como Pequenos Grandes Contos de Verdade, finalista do Prêmio Jabuti. Mãe de Diego, divide-se entre os cuidados com o bebê, descobertas culinárias e muitos, muitos textos Isabel Malzoni é

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