Quem é o pai dos seus filhos?


Maria Carolina Signorelli
por: Maria Carolina Signorelli
Psicóloga de crianças e adolescentes

(foto: reprodução/Pinterest)

A gente está sempre discutindo os dilemas maternos. Mas no mês dos pais, eu resolvi abrir espaço para falar um pouco sobre a relação pai e filho. Assim como nós, os homens também tem os questionamentos deles. Eu observo isso no consultório, no meu universo de relações e até dentro da minha própria casa. Uma coisa é certa: não é fácil para as mães e nem para os pais, equilibrar as diversas tarefas e responsabilidades que se tem dentro e fora da vida familiar. Além disso, vejo que os padrões idealizados também vem atravessando o universo paterno. O rótulo de “homão” que Rodrigo Hilbert recebeu, está aí para mostrar o quanto pode ser pesado o modelo de “homem perfeito”. O próprio Rodrigo se pronunciou a respeito e disse que não se acha merecedor de tantos elogios por cuidar dos filhos, da casa e por estabelecer junto com a mulher, uma divisão de tarefas que funciona. Eu concordo com você, Rodrigo! Sem parceria e corresponsabilidade, não funciona mesmo! E aí está mais uma receita que não se encontra pronta…

Sou a caçula de 3 mulheres. Cresci numa típica família de classe média da cidade grande: meu pai trabalhava e minha mãe, professora, dedicava-se quase que exclusivamente aos cuidados das filhas. Meu pai, que hoje tem 83 anos, foi como a grande maioria dos homens da sua geração: quase nunca colocava a mão na massa pra cuidar da gente no dia-a-dia. Já ouvi minha mãe contar algumas vezes a seguinte história: Certa vez, ela foi a um chá de cozinha e deixou minha irmã mais velha, ainda bebê, sob os cuidados do meu pai. Na hora de trocar a fralda, ele ficou tão perdido, que acabou indo buscar a minha mãe para que ela executasse a tarefa! Se isso era um problema para os dois? Eu acho que não, pois minha mãe sempre conta esta história com um sorriso no rosto! Ah, e ela voltou pra festa depois que trocou a fralda da minha irmã! A verdade é que eu acho que a dinâmica dos dois funcionava. Mesmo meu pai não sabendo trocar fralda. Mesmo não sabendo cozinhar. Mesmo não lavando roupa e nem indo à lavanderia. Mesmo indo pouquíssimas vezes ao supermercado. Mas ele levava a gente para a escola todos os dias. E como muitos pais de ontem e de hoje, ele ralava muito para nos proporcionar uma boa escola, o inglês, a faculdade. Ele me comprou presente de dia das crianças até eu ter uns 15 anos! Ele era o motorista oficial da minha turma de amigas na adolescência. Ele me ensinou a andar de bicicleta e ainda fez pão caseiro umas duas vezes na vida! Lembro-me que ele viajava muito a trabalho, mas sempre foi muito presente! Me dava beijo de boa noite e até hoje, me liga todos os dias para mandar seu beijo pelo telefone. Nossa relação sempre foi e ainda é, cercada de muito afeto!

São as experiências que a criança vivencia no seu dia-a-dia em família que irão enriquecer sua vida emocional e construir sua memória afetiva. E isto só é possível se a mãe e o pai se entregarem de verdade nesta relação. Mas esta entrega tem que envolver uma dose de prazer. Porque quando é só obrigação, fica maçante. E se isto acontecer, é hora de repensar a rotina e a distribuição de tarefas. Por mais controladora que você seja, não dá para fazer isto sozinha. Afinal, o filho é, sim, dos dois. Nunca se esqueça que dá pra somar! Duas cabeças juntas, pensam, sim, melhor. As diferentes habilidades se complementam. É fato: hoje em dia, a grande maioria dos homens quer se envolver mais na educação dos filhos. Mas eu ouço muitos pais se queixando que as mulheres dão pouco espaço para que eles façam as coisas à sua própria maneira.

Eu hoje, só consigo fazer tudo o que faço, porque tenho um companheiro que abraçou a causa de ser parceiro na educação dos filhos. E a gente foi aprendendo a estender a mão um para o outro, à medida que os desafios se apresentam. A gente construiu juntos o plano A e o plano B para buscar os filhos na escola. A gente se divide nas tarefas do dia-a-dia. A gente segue experimentando o melhor jeito de fazer funcionar. Porque os dois assumiram a responsabilidade pelas crianças. A gente dá cobertura um para o outro. E aí, como consequência, ambos acabam se envolvendo na lição de casa, nas compras de supermercado, no leva e traz das crianças. Outro dia, fui buscar minha filha no ballet e ela me disse: “Mãe, hoje foi o papai quem fez meu coque!”. Confesso que fiquei bem espantada, pois para mim, aquela era uma cena inimaginável! Mas o fato é que ele fez! E não é que fez direitinho?! É, pai engenheiro também é capaz de fazer coque de ballet!

A gente não pode esquecer que os homens se constroem pais a partir das experiências que tiveram como filhos mas, principalmente, a partir das experiências que estão construindo com os próprios filhos. Assim como nós, mulheres-mães, lutamos para ter a liberdade de ser quem somos, também precisamos dar espaço para que os homens se tornem os pais que desejam e que podem ser.

E aí, eu te pergunto: que tipo de parceria você, mãe, estabelece com o pai dos seus filhos? Pode ser que ele não seja mais seu companheiro, mas ainda que a vida a dois não exista mais, a relação pai-mãe-filho seguirá existindo. E de alguma forma, ela precisará funcionar. Como? Vocês vão ter que descobrir vivendo juntos, os desafios de cada etapa que a vida dos filhos apresenta. Boa sorte pra nós!

Feliz dia dos pais!

Carol Signorelli

  • Maria Carolina Signorelli

    Psicóloga e mãe de Gabriela e Fernando. Ou vice-versa! Atende crianças e adolescentes no consultório e é expert em orientar os pais em seus dilemas

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