O que aprendi com as mulheres mais bem-sucedidas das Américas


Isabel Malzoni
por: Isabel Malzoni

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Precisamos ser um bom exemplo para outras mulheres, o que inclui ajudarmos umas às outras (Foto: 123RF)

As mulheres detêm apenas 7,2% das posições nos conselhos das empresas em mercados emergentes. Nos Estados Unidos, o número é um pouco maior, 16%, mas na América Latina não passa de 5%. Elas comandam apenas 26 das 500 maiores empresas listadas pela revista Fortune. Essa falta de representação não só prejudica as mulheres hoje, como também afeta também as gerações futuras e a economia como um todo.Foi com essa preocupação em mente que a Sociedade das Américas/Conselho das Américas (AS/COA), uma organização internacional composta por empresas que se propõem a fomentar o desenvolvimento econômico e social nas Américas, criou, em 2012, a Rede Hemisférica de Mulheres (Women’s Hemispheric Network, ou WHN). A WHN se empenha em estimular o networking entre jovens mulheres e compartilhar as histórias e experiências de profissionais bem-sucedidas com o objetivo de dar suporte e estímulo para que as mais jovens não abandonem o mercado de trabalho e, pelo contrário, persistam na busca por posições de liderança.

Na prática, a WHN já realizou 24 eventos fechados em nove cidades de diversos países das América Latina e do Norte, nos quais acontecem palestras e debates com essas mulheres de sucesso. Até agora, só participavam desses encontros pessoas convidadas pelos membros da AS/COA e sequer houve a presença da mídia, para garantir a privacidade dos participantes. Entre elas estão figuras poderosas, como a presidente do Chile, Michele Bachellet, a ex-primeira dama e candidata à presidência do México, Margarita Zavala, Marina Silva, ex-senadora e candidata à presidência, Patricia Menéndez Cambó, vice-presidente do escritório Greenberg Traurig LLP, Denise Pavarina, diretora-gerente do Bradesco, Juliana de Faria, fundadora do Think Olga, Sonia Dulá, vice-chairman do Bank of America Merrill Lynch para a América Latina, Sônia Hess de Souza, presidente da Dudalina, Donna Hrinak, presidente da Boeing na América Latina e Caribe, e muitas outras. A partir desse mês, em evento que acontecerá em Nova Iorque, os encontros passarão a ser abertos ao público e à imprensa com o objetivo de expandir o alcance da rede.

Conversamos com a diretora de relações corporativas da WHN, Natalia Williamson, para descobrir as lições mais valiosas que ela tirou de escutar as histórias e conselhos essas mulheres durante esses últimos anos. Ela conta que esses ensinamentos impactaram a sua própria vida e as suas percepções dos desafios enfrentados pelas mulheres de maneira muito mais intensa do que ela poderia imaginar. “Por exemplo, nunca havia me dado conta da importância de escolher o homem certo para ser meu parceiro e o quanto essa decisão influenciaria meu trabalho (veja abaixo o insight de Patricia Menéndez-Cambó). Isso ficou ainda mais evidente depois que tive meus filhos, e pude viver na pele os desafios de equilibrar o lado pessoal e profissional. Por sorte, fiz a opção certa. Mas foi por meio das histórias pessoais compartilhadas por essa rede que aprendi e busquei novas maneiras de interagir e conquistar o meu espaço, valorizar o meu trabalho, dentro e fora de casa, e a importância de eu mesma me tornar um role model para minha filha e meu filho. Os desafios, vitórias e fracassos desses homens e mulheres, de variados países, idades, perfis e setores, comprova que temos uma agenda em comum, que é ajudar no empoderamento de outras mulheres, enquanto ao mesmo temos empoderamos a nós mesmas. Estamos convencidas de que o fortalecimento das mulheres melhora a sociedade em geral”, afirma Natalia. Veja abaixo as lições selecionadas por Natalia e as falas  (nos links dos vídeos dos encontros) que ela e sua equipe não mais esqueceram.

A importância de escolher bem o parceiro afetivo

“Não teria feito nada disso sem o apoio de um relacionamento verdadeiro em casa”, afirmou Patricia Menéndez-Cambó, presidente de práticas globais do escritório internacional de advocacia Greenberg Traurig. Em uma entrevista dada durante o fórum da rede que aconteceu em Miami, em 2013, Patrícia explicou que seu parceiro foi quem lhe possibilitou encontrar um equilíbrio entre vida pessoal e profissional, fazendo com que ela pudesse ter tudo que considerava essencial, o trabalho e uma família.

Buscar mentores

A empreendedora, investidora-anjo e executiva norte-americana Lisa Raggiri faz questão de falar em eventos sobre carreira e empreendedorismo para mulheres porque ainda há poucas em situação de liderança – e isso pode interferir nas escolhas e conquistas da próxima geração. Ela acredita que é importante ter mentores, mas alerta: “Sempre busquei mentores de ambos gêneros, sem distinção, é isso foi importante para mim. Tenho um mentor homem e uma mentora mulher, de quem gosto muito, e eles tiveram papel muito importante na minha carreira, guiando-me para as melhores direções”, disse, num evento Miami em 2015.

Fazer networking

Sallie Krawcheck, CEO e co-fundadora da Ellevest, foi categórica ao afirmar, em outubro de 2013: Networking é a regra n°1 não-escrita de sucesso nos negócios. “Não nos ensinam isso na faculdade. Mas veja: somos boas alunas nessa sala. Estudamos e fazemos tudo que nos dizem para fazer e entregamos os resultados. Mas quando chegamos aos 30 anos, os homens começam a ser promovidos e nós não. O motivo é que eles fizeram o tal networking”. Sallie aponta que uma das razões para isso é que nós mulheres ficamos mais confortáveis em fazer contato com outras mulheres, e isso nos restringe. Ela deixa o seguinte recado: expanda sua rede de contatos, dentro e fora da sua empresa. 

Buscar e criar oportunidades

É crucial manter contato e se relacionar com aqueles que podem criar oportunidades para o seu avanço profissional. Esse é um dos bons ensinamentos que ficaram da palestra concedida por Jane Fraser, CEO do Citi Latin America, em janeiro de 2016 em Miami.

Equilíbrio entre vida pessoal e profissional

Essa é a questão que afeta 100% das profissionais que têm família. Mas a presidente e publisher do Miami Herald Alexandra Villoch tira um pouco a pressão dos ombros femininos. “Nós nos referimos ao equilíbrio entre a vida pessoal e o trabalho como a uma balança ou uma gangorra, com um peso em cada ponta. Mas lembre-se que a gangorra se move para cima e para baixo, sem nunca estar perfeitamente equilibrada. Há momentos em que seu trabalho estará em cima, e haverá pouco espaço pra sua vida pessoal, assim como haverá momentos em que sua família ou sua saúde serão mais importantes. É essencial ter essa clareza. Não dá para fazer tudo porque você precisa, sim dormir, e somos muito melhores quando conseguimos dormir. Portanto, quando bater a vontade de ser perfeita, deixa-a de lado.” 

Ajudar umas às outras

“Oprah disse certa vez, muito acertadamente. Há um lugar especial no inferno para mulheres que não ajudam outras mulheres. Precisamos nos ajudar. Precisamos ser um bom exemplo para outras mulheres. Acho que é o caso de dizer: ‘paguei um preço alto que não quero que ninguém mais tenha de pagar’”. Essa declaração memorável foi dada por Donna Khrinak, presidente da Boeing Brasil, em março de 2015, após o evento da WHN que aconteceu em São Paulo.

Corra riscos

“Pare de escutar os ‘nãos’. Qualquer um pode dizer que aquilo não é possível, que você não vai conseguir. Se você falhar, bem, parabéns, significa que você teve coragem para fazer alguma coisa. Então você pode começar outra”, disse Claudia de Heredia, sócia-fundadora da rede de lojas online mexicana Kichink!, que em dois anos de operações já possui 25 mil lojas cadastradas, sendo que 70% delas são operadas por mulheres. 

Levante o braço e faça a pergunta

É muito importante encontrar a sua própria voz e fazer perguntas. Essa é uma das razões pelas quais mulheres não ganham tão bem quanto homens. Essa é a constatação de várias participantes de um evento que ocorreu em Miami em 2016, como a ex-ministra salvadorenha María E. Brizuela de Ávila e Sonia Garcia-Romero, do J.P. Morgan’s.

Coloque-se

Não apenas fale. Esforce-se para aumentar a sua visibilidade para futuras oportunidades, como, por exemplo, uma promoção.

Mude a sua mentalidade

“Quer saber, acho que os obstáculos estão na nossa cabeça”, afirmou Adriana Noreña, diretora-geral do Google para América Latina, logo no começo do evento que aconteceu em Nova Iorque em 2013. Para exemplificar essa constatação polêmica, contou sobre sua entrada no Google 8 anos antes, quando descobriu estar grávida ao mesmo tempo em que foi contratada, tendo sido bem recebida mesmo assim. “Também não tive nenhum obstáculo por ser mulher. Mas talvez não tenha percebido um obstáculo porque não esteva querendo enxergá-los, entende? É uma possibilidade”, colocou ainda a presidente e CEO da empresa de tecnologia mexicana Softtek.

É preciso envolver os homens

A inclusão das mulheres no mercado de trabalho não é apenas tarefa nossa. Os homens podem e precisam debater e participar dessa questão. Jaime Ardilla, presidente da Genreal Motors South America, que foi o primeiro palestrante homem a falar em um evento da WHN, acredita que hoje o preconceito é mais sutil do que já foi. “Há um segundo passo a ser tomado, acerca de uma discriminação mais subconsciente das mulheres, uma certa atitude condescendente de que as mulheres teriam fraquezas que precisam ser protegidas. Precisamos superar isso.”

 

  • Isabel Malzoni

    É jornalista e sócia da Editora Caixote, que publica livros infantis interativos, como Pequenos Grandes Contos de Verdade, finalista do Prêmio Jabuti. Mãe de Diego, divide-se entre os cuidados com o bebê, descobertas culinárias e muitos, muitos textos

    Isabel Malzoni é

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