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Por que a gente se sente só e sobrecarregada?

Publicado em 23.03.2016 | por

mãe_bebê_cansada

Ainda hoje, no mundo ocidental, o filho é responsabilidade só da mãe, destaca a antropóloga (foto: CrayonStock)

Ao se mudar com a família para o Upper East Side, bairro de elite de Nova York, a antropóloga Wednesday Martin enfrentou alguns obstáculos para se encaixar à nova “tribo”. Por não pertencer a um “clã” com status, sofreu discriminação na escola e até mesmo no parquinho – o filho dela nunca era convidado para brincar na casa de ninguém. Uma vez que começou a ser aceita no grupo, o que passa pelo flerte com um “macho alfa” e pela compra de uma bolsa Birkin, da Hermès, Wednesday pode observar de perto quem eram essas famílias ricas e o que estava por trás de determinados comportamentos, como a busca das mulheres por um ideal de beleza surreal, o jogo de poder dos maridos e, ainda, a superproteção da prole. Enquanto estudiosa de diferentes povos e animais pelo resto do mundo, as comparações tornaram-se inevitáveis, especialmente com outros primatas. O resultado foi o divertido livro Primatas da Park Avenue (Ed. Intrínseca), lançado no fim do ano passado por aqui, que resume como é a maternidade em uma grande metrópole no século 21. Confira o bate-papo que tivemos por e-mail com a autora a seguir.

It Mãe: Por que as mães urbanas, ao contrário de outras tribos distintas, tendem a ser mais solitárias, embora cercadas de tanta gente?

Wednesday Martin: O isolamento das mães urbanas está relacionado aos nossos padrões de imigração e tradições culturais. No Ocidente industrial, tendemos a viver neolocalmente. O que significa que quando nos casamos, costumamos nos mudar para longe de nossas famílias grandes. É um aspecto da modernização que nem sempre foi favorável às mulheres. Se você quer desempoderar uma mulher, leve-a para longe de seus parentes e impeça que ela trabalhe. É o que basta.

It Mãe: No Ocidente industrializado, não esperamos que nossas crianças nos ajudem em muita coisa até que se tornem adultos. Qual o problema disso?

Wednesday Martin: No mundo todo, a maioria das crianças ajudam suas famílias aos 7 anos, o que parece ter um efeito positivo no bem-estar emocional tanto de pais quanto de filhos. É importante observar que não estamos falando de trabalho infantil. Em vez disso, de crianças varrendo, cuidando de bichos, fazendo camas – atividades com que possam arcar dentro e fora de casa, apropriadas para as mesmas e até divertidas. A antropóloga Karen Krames descobriu que as crianças de uma tribo Maia (América Central) trabalhavam duro. Mas elas e os adultos da comunidade pareciam satisfeitos e descreveram a si mesmos mais felizes do que os pais que conhecemos. As crianças Maia sabiam as tarefas que lhes cabiam – ajudar a segurar o bebê, a plantar e a cozinhar etc. – e os dados etnográficos sugerem que isso fez com que desenvolvessem um senso de segurança, competência e autoconfiança. Já os adultos Maia dessa tribo nunca descreveram a maternidade/paternidade como algo esgotante e depressivo como nós às vezes fazemos. Não podemos viver em sociedades tradicionais, mas podemos dar às crianças diversas atividades para fazer com que se sintam competentes e, ao mesmo tempo, equilibrar nossas exaustivas práticas e crenças relacionadas à criação dos filhos.

It Mãe: Você diz no livro que, ao modificar a infância, modificamos a maternidade. Qual o impacto dessa mudança na vida das mães urbanas?

Wednesday Martin: Nós tornamos a infância e as crianças um trabalho intenso, caro e exaustivo. O que impacta filhos e pais (mas principalmente as mães porque no contexto do Ocidente industrial, são elas quem fazem o trabalho pesado, ainda que isso esteja mudando). A socióloga feminista Sharon Hayes escreve sobre a “maternidade intensa”, ou seja, uma aflição específica de mães mais ricas e bem instruídas. Espera-se, assim como elas esperam de si mesmas, que elevem o bem-estar de seus filhos em todos os níveis, o tempo inteiro. Deixar o filho só brincar é praticamente negligência nesse ponto de vista. Você tem de brincar com eles, constantemente promovendo jogos educativos, tornando o momento uma oportunidade para conexão emocional e aperfeiçoamento. É um exagero! Não me espanta que as mães nos EUA sejam grandes consumidoras de vinho!

It Mãe: E podemos mudar isso?

Wednesday Martin: Sim, podemos. Ao enxergar o nosso legado como reprodutores cooperativos e nos espelharmos nisso.  A maternidade é exaustiva quando a vivemos sozinhas, quando acreditamos que a responsabilidade é apenas da mulher e quando competimos. Há muitas expressões, em diferentes sociedades tradicionais, que citam que “uma criança tem muitas mães”. Para começar, busque um grupo de mães que pensam como você para se encontrar casualmente com os filhos – uma pode dar uma olhada no filho da outra enquanto vocês relaxam. Deixe para lá a ilusão da infância perfeita e da mãe perfeita. Ofereça oportunidade para que crianças de todas as idades sejam úteis. Elas são basicamente programadas para ajuda, então deixe que o façam. Podem reclamar no começo, mas é provável que se divirtam. E você vai se ressentir menos!

It Mãe: As mães urbanas passam por sacrifícios emocionais e físicos para “recuperar o corpo de antes da gravidez”. Você diz no livro que isso é uma fantasia. Por quê?

Wednesday Martin: É uma fantasia cruel, sim. Não é possível pelo simples fato de que você teve um bebê. As coisas mudam. Uma primípara (quem teve um parto) ou multípara (quem teve mais de um parto) não é uma nulípara (que nunca pariu). Adoraria que pudéssemos respeitar e reverenciar o corpo materno. No Brasil e em Nova York principalmente, as mulheres vivem uma cultura de exibição de corpos implacável, com patamares altos e imperdoáveis. Isso tem um custo emocional e físico para as mulheres.

It Mãe: Por que as mulheres parecem ser tão desunidas às vezes, excluindo umas às outras, como você pode sentir na pele no Upper East Side?

Wednesday Martin: O termo antropológico para isso é “competição inter-sexual” e costuma surgir quando o número de mulheres em idade reprodutiva ultrapassa o número de homens na mesma condição e quando os homens controlam o acesso aos recursos. A violência feminina geralmente passa despercebida. Elas a demonstram por meio de ataques à reputação (fofoca), exclusão social e construção de alianças contra outra mulher. Nesse contexto, com frequência, não é do interesse delas cooperar, especialmente se não pertencem à mesma família.

It Mãe: Por último, em determinado momento do livro você conta que encontrou apoio das mães da sua tribo quando realmente precisou. Há esperança, então?

Wednesday Martin: Há muita esperança, desde que deixemos de lado a fantasia de que a família nuclear é o que basta, e que as mães são as únicas responsáveis pelo bem-estar das crianças. Realmente é necessário uma vila (para criar um filho, conforme ditado africano) e quanto mais agirmos assim, mais próximos estaremos do “roteiro” evolutivo da paternidade e da maternidade, em vez de lutar contra o mesmo – e melhor nos sentiremos.

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Malu Echeverria

Jornalista, mãe do Gael e redatora-chefe do It Mãe. Para ela, é essencial colocar a máscara de oxigênio primeiro na gente, depois na criança

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