“Manhê, como é que eu fui parar na sua barriga?”


Maria Carolina Signorelli
por: Maria Carolina Signorelli
Psicóloga de crianças e adolescentes

O desejo de saber sobre a origem dos bebês é um tema que vai e volta. Conforme a criança vai amadurecendo emocionalmente, irá demonstrar a necessidade de explicações mais complexas (foto: Free Images)

Crianças são curiosas por natureza! Falar sobre a origem dos bebês é um tema que pode deixar os adultos desconfortáveis. O motivo é que já temos uma sexualidade genitalizada, ou seja, amadurecida, onde o sexo entra numa esfera mais complexa, envolvendo não apenas a reprodução, mas também a libido, os afetos. Quando seu filho te pergunta: “ Mãe, como fui parar na sua barriga?”, isso não significa que chegou a hora de ter “aquela conversa séria” sobre sexo. A criança não tem isso ainda. Entre perceber as diferenças sexuais, fato que acontece por volta dos 3 anos, e compreender que é preciso fazer sexo para ter bebês, há um longo caminho! Então, muita calma nesta hora, pois entender todo o processo leva alguns anos e você tem o tempo ao seu favor. Você verá que o desejo de saber sobre a origem dos bebês é um tema que vai e volta. Conforme a criança vai amadurecendo emocionalmente, irá demonstrar a necessidade de explicações mais complexas.

Qual é o jeito certo de falar sobre isso?

Não existe a maneira correta de falar de onde vem os bebês. Diante das dúvidas do seu filho, você precisa aguçar sua sensibilidade e se perguntar: “O que será que ele está querendo saber? Nesta idade, o que ele já tem condições de compreender? ”. Isso depende muita da idade da criança. Se o seu filho tem 3 ou 4 anos, é provável que, num primeiro momento, responder que ele “nasceu da barriga” seja suficiente. Mas se seu filho tem 10 anos, pode ser que já esteja estudando sobre reprodução na escola. Então, as explicações terão que ser de outra ordem. E, com certeza, as questões dele também serão outras. Aos 10 anos ele já estará com um pezinho na puberdade e em breve passará por mudanças hormonais e corporais. Tudo isso influencia no tipo de dúvida e nas respostas que precisam ser dadas.

Você deve sempre esclarecer as dúvidas do seu filho e nunca deixá-lo sem respostas. Se ele chegar com aquela pergunta complicada justo no dia em que você chegou em casa exausta, vale dizer: “Este é um assunto importante, que eu quero falar com calma e hoje estou muito cansada, mas amanhã falaremos sem falta!”. E cumpra o combinado, ok?

É importante você não inventar histórias mirabolantes, como a da cegonha (apesar de não ser proibido, ok?). Recomendo sempre fazer referência à realidade. Há maneiras de responder às questões de forma adequada à idade. Com crianças pequenas, de 5 ou 6 anos, por exemplo, você pode contar a “historia da sementinha”, explicar que a criança foi parar na barriga da mãe por causa de um desejo do pai e da mãe. Ou seja, contar um pouco de forma lúdica, sem inventar nada muito fora da realidade e sem falar de sexo propriamente dito, o que é cedo para o entendimento deles. 

Dê as informações em doses homeopáticas!

Desejar saber sobre sua origem, compreender seu lugar no mundo, é algo fascinante! É por volta dos 7 anos que as crianças começam a elaborar teorias mais complexas sobre o início da vida. E o adulto tem papel fundamental nesta tarefa. Pois é a partir do que ouve dos pais que a criança terá condições de contar, à sua maneira sua própria história. Quando elas estão se mostrando curiosas para saber de onde vem os bebês, provavelmente estão desejando saber muito mais do que as clássicas “histórias da cegonha, da estrelinha do céu que veio parar na barriga da mamãe”, entre tantas outras que eu ouço por aí. Aliás, vale dizer que estas versões andam meio fora de moda! 

Mas não precisa ficar ansiosa por ter de contar tuuuudo em detalhes. Diante das perguntas do seu filho, você pode iniciar sem pressa, com “doses homeopáticas”. Observe quais serão os desdobramentos. Confie: as crianças nos dão a medida do quanto estão prontas para saber!Vale inclusive tomar cuidado para não ser invasivo e explicar detalhes que a criança não tem maturidade para digerir. Você precisa estar “apenas”, disponível para ir avançando nas explicações, conforme elas forem solicitando respostas mais sofisticadas. Há crianças que perguntam mais, há crianças que são mais contidas.

Acredito que é importante pontuar para a criança que, de alguma forma, sua origem foi marcada pelo desejo de ter um filho. Mesmo que você não tenha planejado sua gravidez, ela aconteceu a partir de um encontro de dois, de uma relação onde haviam sentimentos e expectativas envolvidas. Como e quando você vai contar isto para seu filho, é algo muito pessoal, particular, que também depende do ritmo dele. Quando os pais vão se tranquilizando e vão lidando com as perguntas, sem ansiedade, fase a fase, vão perceber que não vai existir um momento de ter “a conversa”. Na verdade, conforme a criança for crescendo ela irá aprendendo que aquilo faz parte da vida e a cada idade poderá compreender melhor como ela foi parar na barriga da mãe.

Não existe um jeito certo de explicar. Procure a sua forma, seus parâmetros, suas experiências prévias.  Um jeito que recomendo é ler com seu filho um livro sobre o tema. Recomendo esse três:

Este primeiro, A Casa Barriga – Memórias de um Bebê, de Sonia Robatto (Códex) é ideal para ler para os pequenos.

E estes dois: De Onde Vem os Bebês, de Andrew C. Anry e Steven Schepp (José Olympio Editora) e Mamãe Botou um Ovo, de Babette Cole (Editora Ática) mesmo que de forma indireta, já fazem menção à relação sexual, sendo portanto, recomendados para crianças mais velhas! Hoje em dia é comum que no quinto ano as crianças estudam reprodução humana, com 10, 11 anos e que estão com um pezinho na puberdade. 

 

 

Um beijo e até a próxima!

Carol Signorelli

  • Maria Carolina Signorelli

    Psicóloga e mãe de Gabriela e Fernando. Ou vice-versa! Atende crianças e adolescentes no consultório e é expert em orientar os pais em seus dilemas

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